Apostas on-line ampliam pressão sobre inadimplência no comércio

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Santa Cruz do Sul – O crescimento acelerado das apostas on-line no Brasil passou a ser reconhecido não apenas como um fenômeno de consumo, mas também como um fator adicional de pressão sobre o crédito, o varejo e a capacidade financeira das famílias. Em um cenário no qual Santa Cruz do Sul registra índice de inadimplência de 33,64% da população economicamente ativa, conforme levantamento da Equifax, maior birô de crédito da América Latina e fornecedora dos indicadores utilizados pelo Sindicato do Comércio Varejista de Santa Cruz do Sul e Região (Sindilojas-VRP), especialistas apontam que a expansão das chamadas bets contribui para agravar um ambiente econômico já marcado por juros elevados, inflação persistente e desaceleração da atividade econômica. Embora o município tenha registrado leve recuo em relação a abril deste ano, quando a inadimplência alcançou 33,93%, o indicador permanece elevado e acumula crescimento de 1,64 ponto percentual nos últimos 12 meses.

O impacto das apostas digitais sobre a economia ganhou relevância nos estudos desenvolvidos pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que identificam um processo crescente de substituição de consumo. Na prática, recursos que tradicionalmente eram destinados à aquisição de bens, serviços e ao pagamento de despesas essenciais passam a ser direcionados às plataformas de apostas. A entidade estima que, entre 2023 e 2026, cerca de R$ 143 bilhões deixaram de circular no varejo brasileiro em razão desse deslocamento de renda, reduzindo a capacidade de consumo das famílias e afetando diretamente a atividade econômica. O fenômeno ocorre em um ambiente já pressionado pelo elevado endividamento dos brasileiros e pela perda de poder aquisitivo decorrente da inflação.

A preocupação com os efeitos das apostas também passou a integrar as análises dos indicadores de crédito. Para o economista-chefe da CDL Porto Alegre, Oscar Frank, a expansão das bets constitui hoje um importante vetor de deterioração do risco de crédito no país. “A expansão das apostas nas bets constitui objeto de atenção igualmente importante como motivo de deterioração do risco de crédito, de acordo com alertas do Banco Central”, observa. Segundo Frank, o cenário atual resulta da combinação de múltiplos fatores. Embora a taxa Selic tenha iniciado um movimento gradual de redução, seus efeitos positivos sobre a inadimplência tendem a ocorrer apenas no médio prazo. Paralelamente, a inflação voltou a pressionar o orçamento das famílias, especialmente em itens essenciais, como alimentação e combustíveis, enquanto a instabilidade geopolítica internacional e a desaceleração da economia gaúcha ampliam as dificuldades financeiras enfrentadas pelos consumidores. O especialista destaca que a expansão do crédito consignado privado e a facilidade de acesso ao crédito, associadas à ausência de planejamento financeiro, contribuem para agravar o quadro. “A facilidade de acesso ao dinheiro e a falta de conhecimentos básicos sobre planejamento financeiro colaboram para a dinâmica da negativação”, afirma.

Para o presidente do Sindilojas-VRP, Mauro Spode, o impacto já é percebido no dia a dia do comércio. Ele observa que há uma alteração concreta na forma como as famílias organizam seus gastos. “O varejo sente quando há redução da renda disponível. Parte desse recurso deixa de circular na economia local e isso impacta diretamente tanto as vendas quanto o comportamento de pagamento”, afirma. Segundo o dirigente, o momento exige maior rigor na análise de crédito e acompanhamento mais próximo do consumidor.

 

Atuação institucional

 

A mobilização das entidades representativas do comércio também tem buscado atuar no enfrentamento dos impactos das apostas digitais sobre o consumo, o endividamento e a inadimplência. No Rio Grande do Sul, a Federação da Associação Gaúcha para o Desenvolvimento do Varejo (FAGV), com o apoio do Sindilojas-VRP, participa das articulações em torno do Projeto de Lei nº 408 de 2025, que trata da regulamentação da publicidade das apostas esportivas no país.

Sancionada pelo governador Eduardo Leite a lei 16.508/2026 passou a estabelecer limites mais claros para a divulgação das bets, reduzindo estímulos ao consumo impulsivo, fortalecendo a proteção ao consumidor e ampliando a competitividade das empresas locais, especialmente no acesso aos espaços de mídia. O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado do país a estabelecer restrições à publicidade das plataformas de apostas esportivas (“bets”). A lei tem como objetivo proteger a população dos impactos negativos das apostas, prevenindo o vício em jogos, protegendo crianças e adolescentes e promovendo uma publicidade mais responsável.

Para o presidente da FAGV, Vilson Noer, o avanço da pauta, com a aprovação da lei, de autoria dos deputados Tiago Simon (MDB) e Elton Weber (PSB) responde a um cenário que já apresenta efeitos concretos na economia e no comportamento financeiro das famílias. “O que nós estamos percebendo é um desvio crescente de renda, que afeta diretamente o bolso do consumidor e reduz o consumo em praticamente todos os segmentos do varejo”, afirma. Noer destaca que o impacto vai além da redução das vendas e já se reflete no aumento do endividamento e da inadimplência. “Mais de 80% das apostas perdem. Isso significa que jogar, na prática, é perder dinheiro, o que leva muitas pessoas a buscar crédito e amplia a inadimplência”, observa.

Além de coibir excessos na publicidade, a lei também busca garantir maior segurança jurídica ao setor, com regras mais definidas e previsibilidade ao ambiente de negócios. Na avaliação de Noer, a regulação é um passo necessário para equilibrar o mercado e reduzir distorções. “A grande âncora desse problema está na forma como as apostas são promovidas, com forte presença na mídia e entre influenciadores. Regular essa exposição é essencial para reduzir os danos”, complementa.

 

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